A emergência do Instituto Butantan está relacionada com o aparecimento da peste bubônica no porto de Santos, em 1899. O então Instituto Soroterápico de São Paulo foi criado para produzir imunizantes biológicos. Instalado na Fazenda Butantã, vinculado ao Instituto Bacteriológico e sob a direção de Vital Brazil.

Em 1900, Vital Brazil já havia desenvolvido importantes pesquisas ligadas ao ofidismo, trabalhando no Instituto Bacteriológico. Um dos grandes problemas enfrentados pelos imigrantes que viviam na área rural eram as picadas de cobras, que provocavam inúmeras mortes. O estudo e a solução para esse problema eram fundamentais.

Vital Brazil, em seus estudos sobre o soro antiofídico descoberto pelo pesquisador do Instituto Pasteur de Paris, Albert Calmette, demonstrou a ineficácia daquele soro para acidentes com serpentes de gêneros diferentes, concluindo que o antídoto deveria corresponder ao gênero das serpentes, não sendo possível uma única fórmula para todas elas. A partir desta descoberta, Vital Brazil já vislumbrava uma instituição para pesquisa e produção de imunizantes antiofídicos. Adolfo Lutz, diretor do Instituto Bacteriológico o apoiou nesta ideia, mas que foi negada pelo governo.

Com a emergência da peste bubônica no Porto de Santos, Vital Brazil, por outro caminho, conquistou um espaço para desenvolver suas pesquisas.

Logo que o Butantan começou a funcionar, teve início a produção do soro e da vacina antipestosos. Em 1901, o Butantan ganhou autonomia frente ao Instituto Bacteriológico e acabou se transformando, pelas mãos de Vital Brazil, num centro referência em ofidismo, investindo em profilaxia, terapêutica e em pesquisas acadêmicas.

O Instituto Butantan se tornou um centro de excelência de grande impacto sobre a saúde pública de São Paulo e do país, com a produção de imunizantes. Produziu soros antipeçonhentos, definiu processos de dosagem, elaborou provas de paraespecificidade, realizou experimentos de neutralização de venenos por soros homólogos e heterólogos, visando a adequação às diferentes regiões do país e do continente.

O vínculo entre políticas públicas e pesquisas científicas se demonstrou das melhores iniciativas para o enfrentamento das doenças e das epidemias que acometiam a população de São Paulo, evidenciando uma união importante para a solução de problemas. Ainda que, com investimentos insuficientes, para melhor estruturação das instituições de pesquisa, o Serviço Sanitário paulista estabeleceu uma estrutura exemplar, de excelentes resultados. O apoio para que assim acontecesse, veio, como demonstram algumas pesquisas, da elite cafeeira e do Partido Republicano, que tinham todo o interesse na saúde dos trabalhadores das lavouras. Assim, o meio científico conseguiu atrair os interesses políticos e econômicos para o seudesenvolvimento.

A peste bubônica 

Doença que marcou a história dos seres humanos desde a antiguidade e chegou ao Brasil a partir do seu reaparecimento em Hong Kong – China, no fim do século XIX, matando cerca de cem mil pessoas. Em 1899 já estava na Europa, no Porto – Portugal, vinda provavelmente da Índia, em seguida estava no Paraguai, na América do Sul e, no mesmo ano, aportou em Santos.

As notícias de que a peste estava a caminho alertaram as autoridades brasileiras, que imprimiram vigilância ostensiva nos portos. Todos os navios saídos de Portugal, Espanha e Paraguai deveriam ser submetidos a uma quarentena de 20 dias e a desinfecções rigorosas.

Mas as medidas não foram suficientes: em 15 de outubro de 1899 surgiram os primeiros casos de pessoas com febre alta, sede intensa, cansaço e inflamação nos gânglios linfáticos.

Adolfo Lutz e Vital Brazil, do Instituto Bacteriológico, foram enviados a Santos para investigar a situação.

O bacilo causador da doença, o Pasteurella pestis, havia sido identificado ainda em 1894, simultaneamente, pelos cientistas Alexandre Yersin, franco-suíço, e Shibasaburo Kitasato. Em 1896, o cientista russo Waldemar Hafkine criou uma vacina contra a doença. Dois anos depois, em 1898, Yersin fez uso dos primeiros soros antipestosos em seres vivos e foi identificado o vetor transmissor do bacilo, a pulga do rato, por Paul Louis Simond.

Os pesquisadores brasileiros, com base na bacteriologia e nas discussões internacionais sobre as doenças epidêmicas, logo identificaram que os casos sintomáticos em Santos anunciavam a chegada da peste bubônica em São Paulo. O alerta foi dado, os portos brasileiros foram fechados para embarcações provenientes de Santos, a comunidade internacional foi notificada sobre a existência da peste no país e a cidade de Santos ficou sob quarentena.

Essas medidas causaram grande preocupação dos setores políticos e econômicos, devido a possibilidade de escassez de mercadorias no comércio e também pela dificuldade de escoamento dos produtos brasileiros.

Entendendo a gravidade da situação de Santos, o governo federal enviou o médico Oswaldo Cruz, recém-chegado do Instituto Pasteur, de Paris, onde fazia uma especialização em bacteriologia, para acompanhar a investigação junto a Adolfo Lutz e Vital Brazil.

Oswaldo Cruz se instalou no Hospital de Isolamento e iniciou as investigações. Utilizando-se das técnicas da bacteriologia, identificou inúmeros cocobacilos em um paciente com os sintomas de calafrios, cefalalgia, febre, ingurgitamento doloroso dos gânglios inguinais e crurais. Logo classificou o cocobacilo isolado como sendo o da peste bubônica.

Identificada a doença, o governo de São Paulo adotou como medida de combate o isolamento compulsório dos doentes e das famílias, a desinfecção das casas, restrição das comunicações com as localidades sem epidemia, criação de um cordão sanitário, fiscalização das estradas e registro e observação médica dos recém-chegados.

Foi promovida também uma política de combate aos ratos em larga escala, executada pelo Serviço Sanitário e pela população. Foram utilizados venenos em esgotos, galerias de águas pluviais e fluviais, desinfectados armazéns, domicílios, construções e outros lugares de foco de roedores, remoção de lixo das ruas etc. A população foi alertada e incentivada a caçar os ratos, sendo que o Serviço Sanitário chegou a remunerar as pessoas que ajudassem no serviço de extermínio.

O surto de peste no Porto de Santos não chegou a se configurar em uma grande epidemia com altas taxas de mortalidade, por diversos fatores: rápida identificação da doença, medidas de controle, existência do soro e da vacina antipestosos. Mas a existência da peste no Brasil gerou a necessidade de investimento em instituições científicas capazes de produzir soros e vacinas em grande escala, sendo, então, uma conjuntura favorável para o nascimento de duas das maiores instituições de pesquisa em saúde do Brasil – a Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, e o Instituto Butantan, em São Paulo. Os dois institutos consolidaram a medicina experimental, baseada nos conceitos da bacteriologia.

(Foto: Acervo Histórico do Instituto Butantan)