Os serviços de saneamento e saúde no final do século XIX estavam intimamente relacionados com as teorias de higiene da época, que preconizavam o saneamento do meio ambiente como medida preventiva de doenças.

Dentro da estrutura do Serviço Sanitário, de 1892, o Serviço Geral de Desinfecções foi criado pela Lei 240, de 4 de setembro de 1893. A partir de então, fora instalado o Desinfectório Central, tendo como diretor Diogo de Faria, que permaneceu no cargo até 1926.

O Desinfectório realizava desinfecções domiciliares, remoção de doentes para os hospitais de isolamento, além do transporte dos que faleciam por moléstias infecto-contagiosas. Atendia tanto a capital quanto o interior, centralizando esses serviços;

Era equipado com estufas, autoclaves e câmaras a vapor, veículos especiais para o transporte de doentes e objetos contaminados, viaturas especiais para remoção de cadáveres, carros para transporte de desinfetadores, utensílios e produtos para desinfecção. Dividia-se em duas seções: a de objetos infectados e a de objetos desinfectados.

O serviço de desinfecções, porém, em uma escala bem menor, já vinha sendo realizado antes mesmo da criação do Serviço Sanitário do Estado.

Por exemplo, as carroças utilizadas para coleta de lixo eram desinfetadas com “vapores sulfurosos” assim como as “esterqueiras” das chácaras existentes na cidade de São Paulo. As empresas de carros fúnebres, em tempo de epidemias, eram obrigadas a desinfectar seus veículos de acordo com a fórmula prescrita pela Inspetoria de Higiene.

Com a normalização implementada pelo Serviço Sanitário, a desinfecção se inseriu no cotidiano das pessoas. Espaços públicos e privados passaram a obedecer a novas regras. Ruas, praças, habitações, fábricas, oficinas – todas as esferas da vida dos habitantes da cidade foram modificadas. Fiscais, desinfectadores, inspetores sanitários e a política sanitária foram os novos personagens a ocupar a cena urbana, procurando garantir o cumprimento rigoroso das leis, códigos e regulamentos, tendo como principais alvos a população pobre da cidade.

O Desinfectório Central foi instalado na Rua Tenente Pena, 100, no bairro do Bom Retiro, no edifício que hoje abriga o Museu de Saúde Pública Emílio Ribas. A finalidade era desinfectar os ambientes onde houvesse a suspeita de doenças transmissíveis.

O local foi adquirido pelo Estado em 1882, por compra de Manfredo Meyer e de sua esposa Elvira Isabel de Souza Queiroz Meyer. Existia na propriedade um sobrado, conhecido pelo nome de Bom Retiro, onde foi instalada a Hospedaria dos Imigrantes do Bom Retiro, que motivou o nome da Rua dos Imigrantes, que, no final do século passou a nominar Rua José Paulino.

Em 1892 teve início a construção do edifício que abrigaria o Desinfectório, considerado um equipamento fundamental para conter as epidemias. As obras foram executadas por Paul Rouch e J. E. Damergues, e dirigidas pela superintendência de Obras Públicas da Comissão de Saneamento, cujo engenheiro chefe era João Ferreira Ferraz.

O risco de epidemia tornava a notificação compulsória para algumas doenças, ou seja, era obrigatória a informação a agentes de saúde pública sobre a ocorrência das mesmas. O Desinfectório centralizava as informações, aplicava o isolamento que poderia ser domiciliar, supervisionado pelos inspetores sanitários, ou no hospital (no Hospital de Isolamento), sendo que era de responsabilidade do Desinfectório transportar os doentes até lá. Algumas das doenças de notificação compulsória eram difteria, moléstias scepticêmicas, beribéri. As de notificação facultativa eram a coqueluche e a tuberculose.

O doente era removido para o Hospital de Isolamento quando não houvesse condições seguras para o isolamento domiciliar ou a situação financeira da família não permitisse meios para o tratamento.

Algumas das medidas dos inspetores sanitários nas casas dos doentes eram: retirada de tapetes, cortinas e móveis desnecessários do quarto do doente para manter a boa ventilação; recomendava-se evitar o contato de pessoas com o doente; lavar as mãos; ferver os utensílios; lavar e ferver as roupas com soluções antissépticas; desinfetar banheiros e em caso de varíola, vacinar ou revacinar todos aqueles que cercavam o doente, bem como os moradores das casas próximas.

As desinfecções domiciliares eram realizadas por um grupo de desinfetadores e o material constante dos carros de desinfeção era: enxofre em volume de 500 gramas, álcool em frascos de 200 gramas, uma escala métrica, uma escala de dois metros, uma vasilha com goma, um pincel, papel para calafetar, frascos com soluções tituladas contendo sublimado corrosivo, placas de ferro de 60 cm², saco com areia ou barro, um cabo de madeira de três metros, esponja grande, um pulverizador de Geneste&Herscht, uma medida de litro, um copo graduado, soluções tituladas de sulfato de cobre, um pote com vaselina, baldes esmaltados ou de madeira, fósforo.

A desinfeção iniciava pelo assoalho, utilizando-se o sublimado corrosivo, depois eram reunidos os objetos de uso pessoal do doente. No caso de desinfeção por meio de anidrido sulforoso, era feita a cubagem do aposento para verificar a quantidade de enxofre a ser queimada. Os metais eram lubrificados com vaselina e então era lançado álcool em recipientes com enxofre e feita a combustão, ficando interditado o aposento por algumas horas.

Os objetos a serem desinfetados por meio de autoclaves (estufas) e processos químicos eram selecionados de acordo com a sua natureza, observando os cuidados para a preservação dos materiais.

A remoção de doentes fazia-se em carros especiais que só conduziam os enfermos de uma determinada doença.

A desinfecção no Desinfectório era realizada em autoclaves aquecidas de 130° a 140°.  Ao fim de cinco minutos, o vapor acumulado era liberado e aquecia-se novamente a estufa por mais cinco minutos, depois disso tinha início a esterilização com duração de 15 minutos em temperatura de 115° a 120°

Para o interior do Estado foram montadas comissões de inspetores sanitários, auxiliados por desinfetadores que levavam produtos e equipamentos para cidades como Campinas, Santos, Jundiaí, Araraquara, Piracicaba, Taubaté, Jau, Santa Rita do Passa Quatro, entre outras. Em 1896, por ocasião do surto epidêmico de febre amarela no interior do Estado, foram formadas comissões sanitárias especiais em Campinas, chefiada por Diogo de Farias, e em Jaú e Pirassununga, liderada pelo então inspetor sanitário Emilio Ribas. Neste mesmo ano foram instalados desinfectórios em Santos, Campinas e Rio Claro.

Até 1911 o transporte no Desinfectório era realizado por veículos à tração animal. A partir de então, foram adquiridos veículos motorizados, alguns deles ainda preservados no Museu de Saúde Pública Emílio Ribas, que faz parte do Instituto Butantan.

Com os riscos de epidemias, o Desinfectório realizava atividades intensas nas estações de trem, Hospedaria dos Imigrantes, habitações consideradas insalubres, limpeza das ruas, interdição de poços, isolamento e remoção de enfermos e cadáveres.

Os imigrantes eram os mais visados pelos serviços de desinfecção. Em 1895, na Hospedaria do Brás e na de São Bernardo, foram desinfetadas 1.956.486 peças de roupas na estufa, e mais de 500 mil objetos na câmara de enxofre. No Desinfectório Central, os números das desinfecções eram bem inferiores: 35.186 peças de roupas passaram pela estufa e 1.388 objetos foram submetidos à câmara de enxofre .

Com a consolidação das novas descobertas bacteriológicas e o estabelecimento de uma causa microbiológica da doença, as desinfecções passaram as ser utilizadas topicamente, tornando o serviço do Desinfectório desnecessário, já que boa parte de suas ações baseavam-se nas teorias de transmissão de doenças pelo ar ou pelo contato com objetos e pessoas contaminadas. Junto a isso, a pesquisa e a produção de soros, vacinas e medicamentos tornaram-se as principais práticas preventivas, de combate e de controle das epidemias.

(Foto: Acervo Histórico do Museu de Saúde Pública Emílio Ribas – Instituto Butantan)