No dia 9 de outubro de 1918 apareceu a primeira notícia de que a gripe espanhola aportou em São Paulo, capital. Quatro dias depois, o primeiro doente era notificado no Hospital de Isolamento, e em uma semana era declarado o estado epidêmico da cidade. De 9 a 28 de outubro, o número de casos foi para cinco mil e, em 4 de novembro, já eram 7.786 notificações. A partir de 9 de novembro, o número de casos começou a diminuir, sem que os médicos, cientistas e agentes de saúde tivessem conseguido implementar medidas eficazes contra a doença.

Os primeiros casos da doença em São Paulo são remetidos a um time de jogadores de futebol que veio do Rio de Janeiro. Teriam sido os atletas, que adoeceram no dia 9 de outubro, os transmissores da gripe espanhola, uma vez que várias pessoas hospedadas no mesmo hotel do time, o Hotel D´Oeste, adoeceram de gripe.

As mortes em decorrência da “espanhola” aconteciam em um momento que a ciência médica havia alcançado importantes vitórias contra doenças que até então assustavam a sociedade, como a varíola, a febre amarela e a peste bubônica. O Serviço Sanitário trabalhava de maneira a estruturar melhor seus institutos e laboratórios, assim como suas ações junto a população em questões de saneamento, vacinação e fiscalização. Em um momento em que a ciência, com base na bacteriologia, se consolidava com a própria medicina, construindo um discurso de autoridade abalizado pelos números decrescentes de óbitos no Estado, a gripe aparecia como que para desafiar os conhecimentos obtidos até então. Considerada à época como “sem causa específica”, por conseguinte sem terapêutica precisa, assustava o mundo todo pela rapidez com que se disseminava, especialmente no contexto da Primeira Guerra Mundial.

Presença confirmada em São Paulo, a gripe espanhola foi enfrentada pelo então diretor do Serviço Sanitário, Arthur Neiva, que estabeleceu um programa de controle da epidemia. Uma das medidas era orientar a população por meio dos jornais:

CONSELHOS AO POVO
Evitar aglomerações, principalmente à noite.
Não fazer visitas.
Tomar cuidados higiênicos com o nariz e a garganta: inalações de vaselina mentolada, gargarejos com água e sal, com água iodada, com ácido cítrico, tanino e infusões contendo tanino, como folhas de goiabeira e outras.
Tomar, como preventivo, internamente, qualquer sal de quinino nas doses de 25 a 50 centigramas por dia, e de preferência no momento das refeições.
Evitar toda a fadiga ou excesso físico.
O doente, aos primeiros sintomas, deve ir para a cama, pois o repouso auxilia a cura e afasta as complicações e contágio. Não deve receber, absolutamente, nenhuma visita.
Evitar as causas de resfriamento, é de necessidade tanto para os sãos, como para os doentes e os convalescentes. Às pessoas idosas devem aplicar-se com mais rigor ainda todos
esses cuidados (O Estado de S. Paulo, 21/10/1918).

O poder público, instituições e diferentes grupos da sociedade se mobilizaram na organização do socorro aos doentes, disponibilizando atendimento médico, remédios e alimentos. Todas as atividades que envolvessem reunião de pessoas foram suspensas, escolas e igrejas se transforam em locais de assistência aos doentes, cortejos fúnebres foram proibidos, apertos de mão, abraços e beijos foram interditados como meios de evitar o contágio pela gripe espanhola. Aos poucos a vida dos paulistas encontrava-se conduzida pela autoridade do serviço sanitário.

O nome “espanhola” para a gripe surgiu, segundo estudiosos do fenômeno, em função de a Espanha ter se mantido neutra durante a Grande Guerra, não censurando, ao contrário dos países envolvidos, as notícias sobre a incidência da gripe, fato que dava a impressão de que a doença acontecia expressivamente naquele país. A origem mais provável da doença foi nos campos de treinamento militar, no interior dos Estados Unidos.

No Brasil, as notícias sobre a gripe se intensificaram com a morte dos primeiros brasileiros que faziam parte da Missão Médica Brasileira e de soldados que tomavam parte da Primeira Guerra Mundial na Europa. Ao aportar em Dacar, no Senegal, brasileiros tiveram contato com a doença e vieram a falecer. Em terras brasileiras os contágios aconteceram a partir, principalmente, do contato com os viajantes do navio Demerara, que passou por diferentes portos no litoral brasileiro, espalhando a doença pelo país. A gripe espanhola foi responsável pela desestruturação dos recentes programas de saúde que se estabeleceram no início da República, causando pânico em todos os meios da sociedade.

Os números da gripe espanhola no mundo são assustadores, sendo considerada a maior epidemia da história, com cerca de vinte milhões de mortos, além de cerca de seiscentos milhões de pessoas que adoeceram – o equivalente a 80 a 90% da população do planeta. A movimentação das tropas durante a Guerra facilitou a transmissão da doença. Em São Paulo os dados não são precisos, mas, oficialmente, pelo menos 116.777 mil pessoas adoeceram e foram registrados 5.331 mortos, aproximadamente 1% da população, isso sem considerar as mortes por complicações decorrentes da doença. Foi uma calamidade – termo usado na época – que mobilizou toda a população. Foram montados vários postos de socorro e todos os hospitais se envolveram. Além disso, o serviço sanitário instalou quarenta hospitais provisórios em escolas, igrejas, espaços comunitários. Um deles, na Hospedaria de Imigrantes, foi dirigido pelo médico Arnaldo Vieira de Carvalho, e contou com alunos e professores da Faculdade de Medicina no atendimento. Houve muitas ações de solidariedade por parte da população, que organizava a distribuição de alimentos, principalmente sopa e pão, pois a doença atacava mais fortemente pessoas desnutridas, ou seja, atingiu exponencialmente os pobres, que eram muitos em tempos nos quais a carestia se somava à escassez de alimentos devido à Guerra.

Por outro lado, o grande número de mortes afetou diretamente o serviço funerário, que, não conseguindo dar conta da demanda, passou a praticar preços abusivos. Diante disso, o poder público passou a fornecer caixões e transporte gratuitos para os falecidos que não tivessem recursos próprios. Contou para isso com a colaboração de marcenarias e com a Escola de Artes e Ofícios, à época sob a direção de Ramos de Azevedo, para a fabricação de caixões e camas paras os doentes. O desejo de auferir lucros com a situação aconteceu também na área farmacêutica, que apresentava diferentes medicamentos, a maioria sem qualquer efeito, como sendo terapêuticas efetivas contra a doença, e também entre os vendedores de desinfetantes e, até mesmo, de tecidos usados nos rituais fúnebres.

Com o aumento de doentes e de mortes, todas as medidas e orientações do Serviço Sanitário, do alto de sua autoridade médica, evidenciavam a ineficácia. O medo aumentou, e ideias de controle de doenças utilizadas em outras epidemias vinham à tona e eram defendidas na imprensa. Eram retomadas propostas de isolamento, desinfecções generalizadas, barreiras sanitárias, infusão de ervas, intensificação da higienização dos ambientes, controle dos cheiros, insetos, roedores etc. O consumo de desinfetantes e medicamentos para gripes aumentou, assim como o uso de chás e rituais de cura de culturas tradicionais. Todos se sentiam impotentes. Essa dinâmica alterou o cotidiano da cidade, os hábitos dos seus moradores. Solidariedade e também muitas atitudes menos nobres, como o preconceito, a marginalização, e a mesquinhez também se apresentavam neste momento tenso da vida paulistana.

Logo as pessoas pobres se tornaram as mais visadas para as propostas de intervenção e instrução. Panfletos com orientações resumidas do Serviço Sanitário eram escritas em português e italiano e entregues de porta em porta nos bairros do Brás, Mooca, Pari, Belenzinho, Bom Retiro, Bexiga e nos subúrbios da época (Santana, Penha, Lapa, Pinheiros), trabalho feito com a ajuda da Liga Nacionalista e da Cúria Metropolitana. Os pedidos de doações para a ajuda aos mais necessitados aumentavam e tinham boa adesão, resultado de uma mistura de altruísmo e medida de autoproteção. Remédios começaram a ser distribuídos pelo Serviço Sanitário e em farmácias credenciadas, mediante guia fornecida pelo governo. Os postos de socorro passaram a distribuir sopas e mantimentos aos mais necessitados.

Baratear a vida, eis a primeira
Medida, que ao Governo já propuz…
Obrigar a lavar-se a quem não queira,
No Brás, no Cambuci, na Lapa e Luz!…

Dá fome a Gripe, é filha e da sujeira,
Transmite-se no escarro e pelo pús…
Evitar dar a mão! Desta maneira
É que o mal se propaga e reproduz!

Alimentado corpo e bem lavado,
A casa varridinha, onde se mora,
Juro, não haverá um só gripado!

Sem isso, todo o povo a perna estica,
E com pão a cada hora,
Salvo São Paulo inteiro sem botica!
(Miguel Meira. Pão e sabão. Jornal do Commercio. São Paulo, 08 de novembro de 1918. In BERTUCCI, Liane Maria. Influenza: a medicina enferma. Ciência e práticas de cura na época da gripe esp)

A epidemia acabou por revelar uma cidade empobrecida em meio à pujança econômica. Entre os operários o número de mortes era elevado. A situação econômica frágil da maioria deles os impedia de seguir as orientações de resguardo e descanso dadas pelo Serviço Sanitários, pois precisavam trabalhar e garantir o sustento. Nada democrática, a doença matava mais nos bairros operários do Brás, Mooca, Belenzinho, Bom Retiro e Bela Vista.

A situação caótica perturbava também psicologicamente as pessoas, fosse pelo medo do adoecimento, pelos sintomas, pela perda de algum ente querido. Aumentavam os número de suicídios e de atos violentos – acontecimentos que eram atribuídos em parte aos períodos febris causados pela gripe espanhola e, em parte, à situação de extrema pobreza e desestruturação social vivida em São Paulo nesse período.

A criação dos hospitais provisórios surgiu em um momento de pleno desnorteamento do Serviço Sanitário que, junto com a sociedade organizada, não conseguia conter a epidemia; o número de adoecimentos e mortes só aumentava. A hospitalização à época não era bem vista pelas pessoas. O hospital era entendido como um espaço para o qual se ia para morrer, em sua maioria a população pobre, pois aqueles com melhores condições financeiras travam-se em casa, com médicos contratados. No entanto, devido à gravidade da situação, em pouco tempo o hospital foi incorporado como uma das possibilidades de cura por parte da população, que lá tinha cuidados médicos, enfermeiros, remédios e uma dieta regular. Na imprensa destacava-se que os hospitais eram locais limpos, arejados, claros, confortáveis, com boas camas e lençóis, procurando convencer a população que os cuidados no hospital eram muito melhores do que nas suas casas.

Não só as orientações vindas das autoridades médica e científica estavam entre os recursos utilizados pela população. A força das tradições populares se fazia perceber nas receitas de remédios caseiros com ingredientes como o limão, alho, cebola, canela, cachaça com limão, folhas de eucalipto. A tais receitas se somavam as rezas, benzimentos, garrafadas, rituais de origem indígena e africana. Esses elementos eram utilizados pelos diferentes grupos sociais, independente da origem socioeconômica.

Entretanto, pouca coisa funcionava. As críticas ao Serviço Sanitário e ao seu diretor, Arthur Neiva, aumentavam e o sentimento de impotência se generalizava. Após trinta dias, o ciclo da doença chegou ao fim, trazendo ânimo e esperança aos paulistanos. Os estudos sobre o agente etiológico responsável pela doença continuaram, mas com menos vigor. Somente em 1933, em Londres, durante uma ocorrência de epidemia de influenza pós-gripe espanhola, os pesquisadores Christopher Andrew, Wilson Smith e Patrick Laidlaw e sua equipe identificaram um vírus como sendo o responsável pela doença em seres humanos. A partir da descoberta foram apontadas várias cepas do vírus Myxovirus Influenzae como as possíveis causadoras da epidemia de gripe espanhola. As cepas do vírus da gripe podem ser classificadas, atualmente, em A, B e C, conforme as suas proteínas nucleares, e têm grande capacidade de sobrevivência e mutabilidade, fazendo com que a imunidade adquirida por um indivíduo após uma infecção possa não ser suficiente para garantir a proteção contra o vírus. Devido a essa mutabilidade houve muita dificuldade na identificação exata da cepa do vírus da gripe que causou a pandemia de 1918. Em 2001, os cientistas australianos Mark J. Gibbs, John S. Amstrong e Adrian J. Gibbes publicaram estudos com a afirmação de que o vírus da gripe espanhola teria sido uma combinação fatal entre o vírus humano da gripe e o da gripe porcina – combinação que explicaria a falta de resistência do organismo humano ao vírus.

O caos provocado pela gripe espanhola no início do século XX é exemplar dos riscos aos quais a humanidade está sujeita diante da extraordinária capacidade de mutação dos microrganismos com os quais convivemos. A pandemia trouxe à luz, por sua vez, todos os conceitos próprios à experiência humana vivida no seu limite: sofrimento, solidariedade, ética nas relações sociais e comerciais refletidos na organização social, nas reações próprias de cada indivíduo, na expressão da ciência em desenvolvimento e nas políticas e ações de saúde pública.

(Foto: Distribuição de sopas, 1918. Acervo Arquivo Edgard Leuenroth, Unicamp)