Com a República, o estado de São Paulo manteve forte política imigratória, que era colocada em risco pela precariedade da saúde pública. As notícias de doenças e mortes afastavam os imigrantes e comprometiam o projeto de expansão cafeeira. Sanear as cidades era preciso, em especial Santos e Campinas, foco de recorrentes epidemias. A febre amarela no oeste paulista era uma das principais preocupações. As políticas e ações públicas em saúde eram urgentes.

O Serviço Sanitário, que corresponderia a atual Secretaria de Saúde, foi criado em 1892, pela Lei nº 43, de 18 de junho, para enfrentar esses problemas tanto da capital quanto das cidades do interior. Suas atribuições eram: o estudo das questões de saúde pública; vacinação, inspeção e desinfecção; o saneamento das localidades e das habitações; a adoção de meios para prevenir, combater e atenuar as moléstias transmissíveis, endêmicas e epidêmicas; isolar pessoas infectadas por doenças transmissíveis, responsabilidade reorganizada 1894 com a criação dos Hospitais de Isolamento; exercer vigilância ativa sobre o serviço de esgoto, suprimento de água e os relativos à limpeza pública e particular; inspeção e desinfecção de escolas, fábricas, oficinas, instituições de confinamento como hospícios, prisões, asilos, quartéis, ruas, praças e hospitais; fiscalização da alimentação, bebidas e águas minerais; fiscalização do exercício profissional da medicina e da farmácia; policiamento de cidades, vilas e cemitérios; aplicação multas aos infratores; inspeção de prédios e ordenamento das modificações necessárias naqueles que fossem julgados inabitáveis ou insalubres.

Havia também grande investimento em estatísticas demográfico-sanitárias, com a finalidade de melhor dirigir as ações de prevenção e combate às moléstias transmissíveis.

O Serviço Sanitário era composto por um Conselho de Saúde Pública, responsável pela emissão de pareceres acerca da higiene e salubridade da população e de uma Diretoria de Higiene. A Diretoria de Higiene tinha como competência estudar as questões de saúde pública, implementar o saneamento de localidades e habitações, adotar meios para prevenir, combater e atenuar as moléstias transmissíveis, endêmicas e epidêmicas, sendo responsável pelo cumprimento das normas sanitárias.

A Diretoria era formada pelas seções: Laboratório Farmacêutico, que produzia medicamentos para hospitais públicos e insumos para as desinfecções; Laboratório de Análises Químicas e Bromatológicas, responsável pela análise dos alimentos comercializados; Instituto Bacteriológico, responsável pelo diagnóstico de doenças epidêmicas e pela produção de imunizantes; Instituto Vacinogênico, responsável pela produção da vacina antivariólica em larga escala.

Vigorava no Serviço Sanitário um modelo representado pelas ações da polícia sanitária, pelas campanhas e pela pesquisa. Conjugava-se a teoria dos miasmas – o solo produzia emanações causadoras das doenças, com as teorias microbianas – em que os micróbios eram a causa e os agentes transmissores de doenças. O enfrentamento, portanto, se dava em ambas as frentes. Promoviam-se o saneamento das cidades e a fiscalização dos alimentos e aplicavam-se técnicas de imunização e desinfecção. Já a pesquisa voltava-se para a solução dos problemas de saúde pública, com investigações de campo e estudos experimentais.

Instituto Bacteriológico

O Instituto Vacinogênico foi incorporado pelo Instituto Bacteriológico em 1917. O Bacteriológico foi o laboratório de maior desenvolvimento, sendo a base para as ações do Serviço Sanitário. Realizava estudos microscópicos e bacteriológicos para estabelecer diagnósticos clínicos sobre a causa das epidemias e epizootias. Atuava também no preparo e na aplicação de vacinas e soluções terapêuticas. Em 1893, Adolfo Lutz, médico carioca, com formação na Faculdade de Berna, Suíça, assumiu a direção o Instituto Bacteriológico.

As pesquisas capitaneadas por Lutz foram fundamentais para a identificação das causas das doenças que acometiam a população. Em 1893, por exemplo, Lutz identificou um surto de cólera na Hospedaria dos Imigrantes, enquanto outros médicos diziam ser uma intoxicação alimentar. Outro caso aconteceu em 1895, também na Hospedaria: os médicos diagnosticaram um surto de “febre paulista” e o laboratório de Lutz diagnosticou febre tifoide. As divergências entre o diagnóstico clínico e o laboratorial eram comuns nesse período de consolidação das práticas laboratoriais.

Em 1897, passou a fazer parte do Instituto o hoje renomado médico Vital Brazil, que desenvolveu estudos sobre ofidismo. O Instituto chegou a produzir, de forma experimental, o soro antiofídico elaborado por ele, mas logo voltou-se exclusivamente para os exames bacteriológicos e anatomopatológicos.

Foi no laboratório do Instituto Bacteriológico que os médicos Emílio Ribas, então diretor do Serviço Sanitário, e Adolfo Lutz desenvolveram a hipótese cubana de o vírus da febre amarela ser transmitido por um mosquito. O resultado dessa experiência foi definitivo para alavancar as campanhas de grande sucesso contra a febre amarela, baseadas na destruição dos focos de mosquitos, capitaneadas por Emílio Ribas em São Paulo e por Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro.

Com os resultados de sua aplicabilidade, a bacteriologia se consolidou nas práticas de saúde.