“Que vale a hygiene superficial num bairro essencialmente sujo em cujo oceano de pó se concentram os micróbios de mil moléstias? Que vale a hygiene num bairro cujas ruas empestam-se gazes emanados de eternos locadaçaes? Que vale a hygiene num bairro, cujas casas na maioria cortiços acoitam innumeras pessoas?” – A Folha do Braz, 29 de outubro de 1899 apud Bresciani, Maria Stella. Sanitarismo e configuração do espaço urbano. In CORDEIRO, Simone Lucena (org.) Os cortiços de Santa Ifigênia: sanitarismo e urbanização (1893). São Paulo : Imprensa Oficial, 2010.

Em 1900, o bairro do Bráz já era mais populoso que os demais, isto porque era a porta de entrada da imigração e também onde algumas indústrias foram se instalando pela proximidade da mão-de-obra. Contava com cerca de quatro mil pessoas e era um dos lugares onde se apresentavam os principais problemas na organização da cidade.

Sujeira, áreas alagadiças, casas sem primor estético, coleta de esgoto, ausência de saneamento etc. Situação que colocava a higiene pública nas discussões do dia entre a população e os gestores de políticas públicas. Para os gestores, os conceitos de medicina higienista e engenharia sanitária passaram a ser os norteadores das decisões na orientação para a organização do espaço urbano.

É de 1899, por exemplo, a decisão de sanear e “aformosear” a Várzea do Carmo. As questões sanitárias de São Paulo apareciam com frequência nos relatórios junto às péssimas condições das moradias coletivas, a necessidade de demolição dos cortiços e a construção de novas casas para pessoas de baixa renda.

Os cortiços eram um grande problema para os gestores da cidade. Moradia de um cômodo apenas, abrigava famílias inteiras em condições precárias. Em tempos de epidemias, eram os principais focos de onde as doenças se alastravam rapidamente. Eram também os espaços sobre os quais o poder público e os profissionais ligados à área de engenharia urbana e saúde mais ambicionavam intervir.

A essa altura, havia um saber acumulado na Europa que viveu as epidemias de cólera e tifo, na primeira metade do século XIX, com grande impacto social, e com isso, verificaram a necessidade de intervenção sobre as condições sanitárias das fábricas, das ruas, das moradias e nos hábitos da população. Logo se chegou à conclusão que o custo da doença e das epidemias era muito alto para o Estado e para a iniciativa privada, sendo fundamental a prevenção.

Assim, as teorias médicas de finais do século XVIII e início do século XX, ao demonstrar a correlação entre ambientes malsãos (águas estagnadas, lixo acumulado e péssimas condições das moradias da população pobre e trabalhadora) e as doenças, estabeleceram uma relação duradoura entre o médico e o engenheiro, um cuidando do corpo o outro das ações de saneamento (Bresciani, 2010).

Aprendizado trazido para o debate e implementação das políticas públicas de saneamento no início da República no Brasil, a questão do saneamento tornou-se central nesse momento para evitar a propagação das doenças: água limpa para todos, lixo e esgoto encaminhados para longe da convivência das pessoas eram o ponto de partida para toda a ação relacionada à saúde.