As Santas Casas eram empreendimentos vinculados à colonização portuguesa, instituições filantrópicas de orientação católica, criadas em Lisboa em 1498. Estiveram presentes em todos os núcleos urbanos das colônias portuguesas. No Brasil, desde o século XVI; em São Paulo, desde a segunda metade deste século, sendo a primeira estabelecida em Santos. Durante muito tempo se responsabilizaram, principalmente, pelo acolhimento de doentes e pelos rituais de sepultamento da população pobre e indigente das cidades onde se estabeleciam.

Na cidade de São Paulo, a irmandade da Santa Casa se instalou, primeiramente, junto ao Pátio do Colégio e, posteriormente, no Largo da Misericórdia, junto à antiga Igreja da Irmandade, no bairro da Sé. Era uma casa velha onde se prestava atendimento à população pobre. Neste local, foi construído o edifício “Ouro para o bem de São Paulo” durante a revolta Constitucionalista de 1932.

Em 1744, foram adquiridas quatro casas contíguas à Igreja, reformadas e adaptadas para a instalação do Hospital de Caridade. O espaço, já inadequado em 1775, passou a transferir os doentes para serem atendidos pelo Hospital Militar, mediante pagamento de diárias feitos pela Irmandade.

Depois, em 1825, o serviço instalou-se na casa sede da Chácara dos Ingleses, confluência das atuais Rua da Glória e Rua dos Estudantes, no bairro da Liberdade. O estabelecimento em pouco tempo já se tornava inadequado. Teve início assim um movimento de arrecadação de doações para a construção de um novo Hospital, chamado de “Hospital da Glória”, cuja pedra fundamental foi lançada em 1832 e a sua inauguração aconteceu em 1836, funcionando até 1884, quando transferido para o Largo do Arouche.

A Chácara do Arouche, terreno de 48 mil metros quadrados, foi doada metade pela família Rêgo Freitas e a outra metade pelo Barão de Piracicaba, Rafael Paes de Barros. O terreno fica entre as ruas Doutor Cesário Motta Jr, Rua Jaguaribe, Rua Marquês de Itu e Rua Dona Veridiana, onde se encontra até hoje. Um novo Hospital foi projetado pelo arquiteto Luiz Pucci, o mesmo que fez o Museu do Ipiranga e que fazia parte do escritório de engenharia de Ramos de Azevedo.

O novo Hospital começou a ser construído em 1881, com os donativos recebidos, em sua maioria, da elite paulista, e foi inaugurado em 31 de agosto de 1884. A partir desse momento, os serviços do hospital da Santa Casa foram reorganizados com o estabelecimento de grandes áreas, diferenciando os cuidados, tais como: cirurgia, ginecologia, oftalmologia e otorrinolaringologia, além da separação por sexo e por idade. Doentes com tuberculose ou hanseníase eram encaminhados para novos serviços na própria Santa Casa, como Enfermaria de Tuberculosos e Hospital de Lázaros, ou eram encaminhados para os recém-inaugurados Instituto Pasteur ou, no caso de doenças epidêmicas, para o Hospital de Isolamento de São Paulo.

A Roda dos Expostos, mecanismo utilizado pela Irmandade para o acolhimento de crianças abandonadas, foi instalada em 1825, ocupando diferentes endereços mantidos pela Santa Casa, funcionando até os anos de 1950. A Irmandade mantinha uma casa que abrigava essas crianças no próprio complexo do Hospital, sendo mais tarde transferidas para o Asilo de Expostos Sampaio Viana, no Pacaembu, a partir de 1896. Mantinha também uma escola para crianças pobres, o “Externato Santa Cecília”, fechado em 1904 por orientação dos médicos que consideravam inadequada a convivência entre as crianças e as pessoas doentes.

O tratamento aos enfermos na Santa Casa esteve a cargo das irmãs de São José de Chambéry desde 1872, ordem de caridade pertencente a uma congregação de origem francesa e, muito embora não houvesse médicos com dedicação exclusiva, esses profissionais visitavam os doentes com frequência. Havia na Santa Casa três tipos de atendimento: gratuito, aos pobres e, aos pensionistas de primeira e segunda classes.

No início do século XX era grande o número de vítimas das epidemias em São Paulo e o Hospital não conseguia atender a todos, faltavam leitos, médicos, equipe de enfermagem.

Logo no início da República, em 1891, o médico Arnaldo Vieira de Carvalho assumiu como vice-diretor clínico da Santa Casa. Em 1894, passou a ser o diretor clínico. Na sua gestão, ampliou o corpo clínico com a contratação de médicos e assistentes e também foi o período de introdução dos novos conhecimentos advindos da medicina pasteuriana. Com um corpo clínico que participava das discussões sobre saúde e o desenvolvimento da medicina em São Paulo, a Santa Casa tornou-se um ponto de referência e, logo em 1913, fundou uma Escola de Enfermagem que teve curta duração, dirigida pela médica Casemira Loureiro e por Arnaldo Vieira de Carvalho. E, em 1915, por meio de um convênio com o Governo do Estado, a atual Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), passou a utilizar a Santa Casa para o ensino médico até a construção de hospital próprio. Em 1963, a Santa Casa fundou a sua própria Faculdade de Ciências Médicas com atividades de graduação e pós-graduação.

No contexto do final do século XIX, a Santa Casa tornou-se um importante hospital para o atendimento dos imigrantes e da população em geral. E, logo no início do século XX, foi a referência para o desenvolvimento da Medicina em São Paulo, com a criação da Escola de Medicina, fundada em 1913 por Arnaldo Vieira de Carvalho, lá se mantendo até 1948, transferida, posteriormente, para o Hospital das Clínicas.

Asylo da Mendicidade D. Pedro II

O Asilo foi criado com a finalidade de retirar os pedintes das ruas do núcleo urbano da cidade. Com a transferência dos serviços da Santa Casa para o Largo do Arouche, o Asilo foi instalado na rua da Gloria, na Liberdade, começando a funcionar em 1885, contando com doações privadas, uma dotação da Câmara Municipal e o trabalho das irmãs de São José de Chambéry. Com a inviabilidade das instalações e a precariedade do atendimento foi proposta a construção de um novo espaço, no bairro do Jaçanã, aonde a Irmandade construía um Leprosário para abrigar os indigentes e pessoas com doenças incuráveis sem possibilidade de alta. A obra foi finalizada em 1911 e além das edificações possuía jardins, hortas e os doentes eram estimulados ao trabalho, fabricavam travesseiros, colchões, capachos e sabão. Em 2005 o hospital tornou-se o Hospital Geriátrico e de Convalescentes D. Pedro II e atualmente é referência para o tratamento de Alzheimer.

Hospital São Luiz Gonzaga

A Santa Casa mantinha também o Hospital São Luiz Gonzaga, dedicado, primeiramente, ao tratamento e internação de portadores de hanseníase, no então chamado Leprosário do Guapira, fundado em 1904, no bairro do Jaçanã, em uma chácara vizinha à Serra da Cantareira. O Leprosário funcionou precariamente até os anos de 1920, quando os doentes foram transferidos para o Asilo-Colônia Santo Ângelo, de Mogi das Cruzes.

Posteriormente, em 1932, no local foi fundado o Hospital-Sanatório São Luiz Gonzaga para tuberculosos, mas recebiam também alguns pacientes com sífilis e ancilostomose. Foi nesse hospital que o renomado médico Euriclydes de Jesus Zerbini, iniciou suas atividades como voluntário, efetivando-se posteriormente e onde realizou suas primeiras cirurgias cardíacas.

O Hospital baseava-se na ideia de isolamento como forma de prevenção da disseminação das doenças. Com um corpo clínico reconhecido, o Hospital adquiriu prestígio e deu início ao sistema de assistência senatorial no Estado de São Paulo, acolhendo doentes de diferentes lugares do país. Tornou-se referência em pesquisas sobre tuberculose e funcionou como hospital-escola, recebendo alunos da Faculdade de Medicina da USP, Escola Paulista de Medicina e da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa.

Nos anos de 1940, com a introdução dos quimioterápicos no tratamento da tuberculose, o sanatório entra em declínio, tornou-se hospital geral e nos anos de 1970, após uma crise financeira na Santa Casa, foi parcialmente desativado.
No final dos anos de 1980 perdeu parte do seu terreno para a Prefeitura, e parte do complexo passou a funcionar como pronto-socorro municipal e sede do Arquivo Central da Santa Casa. Na década de 1990 após a reforma voltou a ser administrado pela Santa Casa e atualmente funciona como hospital-geral.